quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Manhãs de nevoeiro



Muitas vezes dou comigo a pensar o que é que passa pela cabeça dos médicos para terem certas reacções face ao nosso trabalho. Naturalmente, temos um modo diferente de olhar o doente e o processo de doença, motivado pela formação de base e experiências prévias, no entanto temos sempre "a mania" de pensar que os outros pensam da mesma maneira que nós. E depois arrependemo-nos. E começo assim, quando tento perceber porque os nossos cuidados, entre muitos outros factores, não têm a representatividade e a importância devida.

Pois então imaginei...no contexto de um internamento hospitalar, um médico entra no serviço lá pras 8h30, 9h, salvo raras excepções mais cedo, e depara-se com o quê?? Com um conjunto de doentes (salvo situação clínica) calmos, a dormir, a respirar regularmente, sem dores, confortavelmente deitados, sem dejecções ou micções no leito... E isto acontece TODOS OS DIAS...

Por isso lembrei-me... para os médicos, que todos os dias vêm esta situação de manhã, esta é ENCARADA COMO NORMAL, NATURAL, diria até GARANTIDA... Afinal, é mesmo o essencial... que eles respirem, comam, durmam...que estejam VIVOS!

A grande questão, é que eles não continuam vivos POR ACASO, ou por obra e graça do divino Espírito Santo! Foram precisos muitos cuidados durante noites longas, duras e sofridas para que, todas as manhãs, os doentes continuem (na sua maioria) vivos, como em todos os outros dias!

Por isso dou-me à tentação de pensar que, de tal maneira os cuidados prestados nas noites são essenciais, no sentido de básicos, mas igualmente importantes, que só os médicos de urgência sabem o que passamos em todas essas noites!

Todos os outros, aqueles que só aparecem de manhã,não vêm esta "normalidade" como resultado do nosso trabalho e, na maioria das vezes, desvalorizam... E porquê? Porque muitas vezes " ... o essencial é invisível aos olhos!"

aquele abraço

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