quinta-feira, 7 de abril de 2011

O que uns consideram ofensivo, já outros....




Diz João Décio, médico reformado há pouco tempo e que fazia as cirurgias de mudança de sexo no SNS, em declarações à TSF, que não irá aceitar trabalhar por uns míseros 4€ à hora! Mais propriamente, a declaração é:

«Isso significava que me iam pagar seis euros em bruto por hora», o que com os descontos ficava em «quatro euros», disse, considerando este valor «ofensivo».«Penso que ninguém aceitaria», acrescentou.

http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=1796728

Ora pensa o médico e muito bem, que este valor é ofensivo (ainda mais porque era o único a fazê-lo no País!). E o que este Sr. pensa é o que pensa toda a classe profissional dele. Também é certo que o mercado não é tão adverso para com eles do que para todas as outras profissões.

Ainda assim, os enfermeiros têm por hábito aceitar estes valores e até trabalhar de borla, seja porque não têm emprego, seja para ganhar experiência, seja para pagar o empréstimo que se fez da casa para a qual não havia possibilidades se não se tivesse um segundo emprego.

Igualmente curioso é o facto de, nestes empregos, geralmente privados, trabalharem o triplo ou o quadruplo do que fazem no público, aceitam ser humilhados e espezinhados por modelos extremamente medicalizados que vigoram nas clínicas e escondem, por demais, erros cometidos por outros profissionais....

E continuam nisto, e aceitam aceitam aceitam, querendo depois que o Governo financie salários mais elevados por trabalhos (que sendo no sector público) potencialmente menos exigentes...

Enquanto não levantarmos a cabeça, enquanto não recusarmos vender-nos por uma bagatela, como classe, enquanto tivermos medo de chamar os sindicatos e fazer queixas (anónimas ou não) a quem de direito, não vamos MESMO a lado nenhum...


aquele abraço

3 comentários:

  1. Meu caro amigo, tem toda a razao no que diz.
    Quero apenas acrescentar que infelizmente o mercado se regula pela lei de oferta e de procura, e infelizmente nos ultimos anos temos assitido a um aumento brutal das vagas nas centenas de escolas de enfermagem pelo país, mais, temos assistido estupefactos a escolas que conseguem criar planos curriculares em que metade dos alunos fazem estagios nos primeiros meses e depois aulas teoricas enquanto outra metade faz o inverso, conseguindo deste modo duplicar o numero de alunos em cada ano lectivo.
    Gostaria que o caro colega me dissesse quantas faculdades de medicina existem em Portugal,e qual foi o aumento de vagas desse curso nos ultimos 10 anos. Mais, gostaria que o colega me dissesse porque existem dezenas de escolas de enfermagem privadas, e ZERO de medicina. Para finalizar gostaria que o colega me dissesse o que fez a Ordem dos Enfermeiros para inverter esta tendencia, e quem terá a ganhar com o aumento do numero de alunos(leia-se Propinas) em Enfermagem, certamente que nao serao os enfemeiros trabalhadores....

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  2. A nossa Ordem não se preocupa com a nossa classe, não nos dá o devido valor, nem reconhece todo o esforço que nós fazemos para enobrecer a nossa profissão.
    Nós os enfermeiros somos detentores e cada vez mais de elevado conhecimento e de competências técnico-cientificas para trabalharmos de forma autónoma e em todas as áreas. No entanto o que se verifica, é que as outras áreas de saúde nos estão a tirar actividades, para as quais nós somos treinados e formados, é inadmissível que a nossa ordem não faça nada, contra esta evidência.
    Carecemos é de uma ordem que nos dê voz e lute pelos nossos interesses, está na altura de mudar.
    Neste nomento as escolas portuguesas de enfermagem são fábricas, não de enfermeiros mas de mão-de-obra barata, é vergonhoso...

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  3. Infelizmente a OE refere não ser capaz de controlar esse fluxo de escolas-cogumelos dado que a competência nessa matéria é do Ministério da Educação, tendo a OE apenas papel "consultivo". Ora não nos podemos esquecer do plano estratégico definido pela OE e apresentado há já vários anos ao ME, que de facto apela ao racionamento da oferta formativa de enfermagem em Portugal, ao qual o ME fez e faz "orelhas moucas", recusando-se a discuti-lo. Nesse sentido, em vez de toda a culpa poder ser atribuída à OE, verificamos que o Governo tem um elevado interesse em manter o mercado de trabalho sobrelotado de profissionais à procura de emprego e, enquanto isso acontecer, o preço dos seus serviços vai ser sempre mais baixo. Ora acontecem também, ao contrário do que possa querer transparecer, movimentos (mais ou menos bem sucedidos) de aumento do nr de vagas de medicina, como a abertura de cursos para profissionais de saúde, em faro e aveiro. Para além disso, assistiu-se na última semana à vinda de médicos da colômbia para exercer medicina geral e familiar em Portugal. Causou muito prurido, mas são necessários e já cá estão. Ora embora a um movimento mais lento, verificamos que mesmo a medicina caminhará para o excesso de profissionais, e ainda bem, que o zé povinho está farto de pagar 90€ por uma consulta médica.

    O que fazer, na Enfermagem, nomeadamente a OE? Talvez a estratégia fosse divulgar ao público o que se passa e, de modo a fazê-los compreender o que se passa e as implicações para os Portugueses, ganhar o seu apoio e assim conseguir pressionar o Governo de outro modo. Embora que eles digam que não faz parte das suas atribuições, eu não concordo. Podem e devem, se querem defender a imagem e o estatuto da profissão de Enfermagem e, com isso, melhorar a assistência de saúde aos Portugueses.

    aquele abraço

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