quarta-feira, 15 de junho de 2011

É tudo uma questão de ... adesivos.





Quem, de entre os milhares de enfermeiros neste País, não conhece a utilidade de um dos instrumentos demais importante para a prestação de cuidados, que é o adesivo?

Ele existe em vários tamanhos, formas e feitios, com as mais diversas aplicações. Seja do "branco", do "castanho", do "castanho com furinhos", do hipoalergénico, do elástico, entre tantos outros, a verdade é que este é um material versátil, portátil e que já contribuiu em muito para o "desenrascar" e "solucionar" de problemas com que os enfermeiros se deparam diária e constantemente.

Desconhecem muitos, porém, a verdadeira importância de tal objecto, qando colocado nas mãos certas.

Há tempos idos uma colega da Comunidade, que trabalha num Centro de Saúde de uma cidade do Litoral, prestava cuidados domiciliares em casa de um utente idoso, totalmente dependente desde há 5 anos, devido a um AVC. O cuidado ao utente era, durante o dia, da responsabilidade de uma senhora que os familiares tinham contratado, por não terem possibilidade de prestar os devidos cuidados. A senhora, na palavra dos familiares, era bastante competente, "até tinha formação e tudo" e verificava-se, de facto, que o utente mantinha um bom estado geral, apresentava pele e mucosas coradas e hidratadas e, no restante exame físico, não se notavam alterações relevantes. Apresentava disartria, contudo aparentava estar orientado e respondia a estímulos verbais e dolorosos. Era alimentado via SNG (sonda nasogástrica) e apresentava hemiparésia.


A colega fazia este domicílio para tratar uma ferida do membro inferior provocada por queimadura com um saco de água quente, de 3 em 3 dias.

Durante a realização do penso, foi-lhe dito pela senhora que tratava do utente que, quando esta o alimentava via SNG, especialmente no início da alimentação, este apresentava tosse não produtiva, em moderada quantidade. Questionada sobre o início dessa tosse, a senhora respondeu que, num acesso de tosse e espirros, há 2 dias atrás, a SNG ter-se-ia soltado, mas ela voltara a pô-la no sítio, com um adesivo novo e tudo!

Foi durante esta conversa que chegou o filho do doente. Presente, ouvia tudo atentamente. A colega começou a prestar os cuidados inerentes à situação e a senhora ausentou-se. Voltou a verificar o posicionamento da SNG, realizou alguns movimentos, verificou novamente, realizou administrações, aspirações, auscultações, inspeccionou as narinas e perguntou se o familiar tinha Vitamina A em pomada. Enquanto fixava a sonda, o familiar repreendeu "vocês enfermeiros gastam muito material!".

"Desculpe?", questionou a colega, surpreendida.



"Peço desculpa, mas eu sou gestor hospitalar e fico estupefacto com as quantidades de material que os enfermeiros gastam todos os dias" - retorquiu o filho. O meu pai consome muitos medicamentos, e em ajudas técnicas tenho gasto um balúrdio... Agora vejo-a a perguntar por mais uma pomada..."

"Chegue-se aqui perto, então... O adesivo que o seu pai tinha estava demasiado apertado e a sonda estava a ser torcida contra a asa do nariz, consegue ver? Quem olha de fora não repara, mas mais perto apercebe-se de que toda esta pele está macerada e, logo quando cheguei, o seu pai queixava-se quando manuseava a sonda. Não era de surpreender. O problema principal não é o material gasto, é mesmo a falta de enfermeiros que existe, que dificulta que em todos os locais de prestação de cuidados se previnam complicações e se maximize o potencial de recuperação dos doentes."

Acrescentou, triunfante: E saiba que com este adesivo acabo de salvar a vida do seu pai.

"- O quê Sra Enfermeira? Está a exagerar não? Foi por o adesivo já não o estar a magoar que lhe salvou a vida quer ver?"

"Nada disso - respondeu - a senhora que cuida do seu pai diz que ele tossia bastante de há uns tempos para cá, sempre que lhe era administrada a alimentação pela sonda. Disse ainda que isso aconteceu após o adesivo se ter descolado. Ora da avaliação que fiz, em que o senhor me viu a mexer na sonda, aspirar e insuflar, não se resumiu à simples troca do adesivo. Aquilo que constatei é que a sonda estava fora do sítio, a meio do esófago quando devia era estar no estômago. Provavelmente deslocou-se quando o seu pai tossiu e foi presa conforme tinha ficado. Deste modo, o alimento é entregue "muito acima" e algum dele reflui, provocando a tosse. Se continuasse a administrar a alimentação e tendo a cabeçeira mais baixa, o mais provavel é que a alimentação fosse parar à via respiratória... O seu pai iria aspirar a sopa e fruta para os pulmões e das duas uma: ou ia desenvolver uma pneumonia gravíssima que implicava o seu internamento e gastos enormes com antibióticos e cuidados de saúde, ou simplesmente este iria asfixiar e vir a falecer durante uma refeição...



O administrador estava parado, quase com a boca aberta e não sabia o que dizer... A colega continuou os ensinos relativos à fixação da sonda e verificação da localização AO FAMILIAR, e prontificou-se a monitorizar a situação durante os domicílios. Finalmente, referiu:

- Dizer-lhe ainda, Sr ..., que foi graças aos meus conhecimentos enquanto enfermeira, que foi possível despistar esta complicação a tempo e garantir que o seu pai cotinua dentro do mesmo estado e evita um sofrimento atroz. Mais enfermeiros houvesse e muitos dos enormes gastos com medicação, meios de diagnóstico e material hospitalar de que tanto se queixa seriam evitados e o custo associado bastante reduzido. Assim como hoje salvei a vida do seu pai com este "simples adesivo", saiba que o faço quase todos os dias, recorrendo ao conhecimento que só os enfermeiros têm e a meios mais ou menos complexos.

Ainda abismado e no meio de agradecimentos, o administrador despediu-se da Enfermeira, para a voltar a ver dali a três dias.


Reflexão final: se calhar não é preciso. Ou então, temos às vezes tanto medo de explicar as coisas aos doentes e familiares, com receio que nos venham cobrar consequências dessa informação posteriormente. Mas se queremos competências, temos de querer a responsabilidade inerente, pelo bem e pelo mal. Saibamos assumir a nossa responsabilidade profissional, saibamos transmitir quem somos e o que fazemos.


aquele abraço

sexta-feira, 10 de junho de 2011

A primeira de várias "pérolas" ...




A primeira de várias "pérolas", encontradas em manuais redigidos pelo próprio Estado, que suporta legalmente as actividades realizadas em LARES e equipas de CUIDADOS DOMICILIÁRIOS, cujos donos/empresas preferem, naturalmente, usar mão de obra mais barata!!!

No primeiro manual da Segurança Social "Apoio Domiciliário: Manual dos Processos Chave", pág. 100 do documento pdf, pode-se encontrar a seguinte descrição:

"Os cuidados de enfermagem são prestados de acordo com o estabelecido no PDI de cada cliente.
Em função dos resultados da avaliação geriátrica de cada cliente e das normas específicas relativas aos tipo de cuidados a prestar, visando a promoção de autonomia e a prevenção da dependência, o enfermeiro responsável por este processo define as regras para a prestação dos cuidados que são da sua exclusiva responsabilidade e aquelas que são delegadas aos colaboradores do SAD, tais como:
o Controlo da diabetes;
o Controlo da tensão arterial;
o Prevenção e controlo da incontinência;
o Posicionamento e mobilização;
o Prevenção e tratamento de úlceras de pressão.

As actividades de enfermagem no domicílio, podem ser delegadas/executadas por um colaborador interno ou externo (contratualização de serviço, rede parceira) do SAD, desde que este possua formação específica para o efeito.
Sempre que necessário, o enfermeiro deverá ainda organizar, colaborar na execução e avaliar programas ou acções de formação destinadas aos colaboradores da Instituição, bem como às pessoas próximas do cliente (família, amigos, vizinhos, voluntários ou outros)."

Noutra parte do documento, dizem:

"Deve ser do conhecimento do cliente, dos colaboradores ou outros intervenientes directos nesta função, a indicação terapêutica, bem como o modo de actuação em situações de emergência relativas aos efeitos secundários da administração dos medicamentos em causa."

Pois claro que sabem... ENTÃO MAS A ADMINISTRAÇÃO DE TERAPÊUTICA, E NÃO O DAR PASTILHAS, NÃO É DA COMPETÊNCIA ÚNICA E EXCLUSIVA DO ENFERMEIRO??

Ora isto vem no manual que, suponho, seja o primeiro (mas que continua a vigorar em diversos estabelecimentos de sua categoria "sociais"). Pode ser encontrado aqui: https://rapidshare.com/files/467671499/Apoio_Domiciliario_-_Manual_dos_Processos-Chave.PDF


Já o manual mais recente (2ª edição) disponível em http://www2.seg-social.pt/preview_documentos.asp?r=32642&m=PDF, faz questão de, na parte "PC05-Cuidados Pessoais", retirar completamente a figura e a descrição das funções do enfermeiro.... SÃO PRECISAS? NAAAAAAAA Senão vejamos a comparação:

No manual antigo:



No manual novo:




Espectacular. Simplesmente espectacular. Ora estamos nós a advogar outras competências, complementares à profissão, quando o Estado "esbanja" as nossas, desde que "qualquer zé" tenha formação????

E assistimos impávidos e serenos a isto? QUE TEM FEITO A OE? SERÁ QUE SABE DISTO? Meus amigos, quem defender estas competências para a classe e a penalização dos muitos colegas que estão a dar formação a auxiliares, sobre tudo e um par de botas a toda e qualquer pessoa (pois só vêm dinheiro à frente) é que vai levar o meu voto!!!

Quanto aos colegas que dão formação sobre posicionamentos, controlo glicémico, alimentação enteral, tratamento e prevenção de úlceras de pressão, esse será tema do próximo post!

Agora é triste, revolta, frustra ver que qualquer um pode pegar no nosso saber e dizer-se competente para tal e o Estado apoiar! Como todos sabemos, qualquer macaco vê TA's, glicémias, uma úlcera.... Agora avaliar faz toda a diferença...mas ninguém parece querer saber disso...


Fica o apelo, sejam Profissionais com "P" e não reles tarefeiros ou mercadores de conhecimentos... Lembrem-se que estão, lentamente, a assassinar a profissão... Pior ainda, quando forem acolhidos no lar de idosos, depois dizem-me se gostaram dos cuidados prestados pelos "cuidadores" (que agora já não se lhes pode chamar auxiliares)....

Fica aqui um link que pode interessar e que espero sinceramente, sirva de motivação para levarem mais enfermeiros para os lares e para os cuidados domiciliários e continuados! Basta um piqueno programa, que até feito em excel dá....

http://www.esenfc.pt/rr/rr/index.php?id_website=3&d=1&target=DetalhesArtigo&id_artigo=2223&id_rev=9&id_edicao=35

aquele abraço

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Prescrever medicamentos e exames ou não prescrever, eis a questão...




Numa "surpresa" de grande visibilidade na comunicação social, deparo-me hoje com a notícia que expressa a vontade da OE (e não da totalidade dos enfermeiros) de ver estes profissionais a prescrever medicamentos e pedir exames em casos protocolados e específicos.

http://www.publico.pt/Sociedade/enfermeiros-querem-poder-receitar-alguns-medicamentos-e-exames_1497118

Gosto e não gosto.

Gosto porque já tive de esperar horas e horas na urgência por um simples RX, umas análises ao sangue ou similares e sei bem o que custa.

Gosto porque despistei e vejo todos os dias colegas despistarem situaçoes graves e urgentes que necessitam de exames complementares básicos cujo resultado (que pode representar um gasto à partida) permite descobrir situações que, se abordadas a tempo, permitem reduzir complicações e por isso custos muito superiores ao da análise pedida com tempo.

Gosto porque vejo os doentes padecerem de dor, sofrimento e complicações que são alertadas repetidamente aos médicos, que estes não valorizam e que se mantêm ou agravam, mas que poderiam ser facilmente resolvidos se se pudesse prescrever fármacos simples (os tais sem receita médica) mas que fazem toda a diferença. Relembremos os casos de doentes que passam dias e dias cheios de dores, com infecções urinárias sem medicação adequada, com naúseas vómitos e afins.

Gosto porque mal ou bem, e como diz a bastonária no artigo do público, as situações de urgência, a experiência diária e a consciência ética obrigam todos os enfermeiros a prescrever diariamente fármacos que não estão prescritos e que fazem toda a diferença (claro que depois o médico não percebe a diferença quando observa no final de uma semana após a queixa e afinal o doente está bem);

Gosto porque as prescrições de paracetamol, laevolac, brufen e outros que tais em SOS são, antes de serem prescritos em SOS, pensados e administrados de acordo com os actuais conhecimentos dos enfermeiros (que já são consideráveis);

Gosto pois faço tratamento de feridas diariamente e sei bem aquilo que sei e os conhecimentos que tenho vindo a adquirir e sei as propostas de prescrição aberrantes e do século passado que me propõem diariamente (que não fazem senão causar danos à ferida e atrasar a cicatrização) e sugiro ajudas técnicas, material de penso, dispositivos de ostomias necessários aos doentes.

Gosto porque temos responsabilidades na administração, o que equivale dizer que só administro se souber que existe maior benefício que risco para o doente, caso contrário estou proíbido de o administrar ou incorro num processo legal de dano. Isto implica, naturalmente, que eu conheça os mecanismos de acção do fármaco, seus efeitos secundários e demais interacções com tratamentos, alimentação (que são bastantes e do modo como são prescritos pelos médicos vê-se que estes não os tomam em atenção) e outras substâncias.

Não gosto de ser uma ASSISTENTE SOCIAL que tem de assinar por baixo, se quero que venha uma ajuda técnica para um dado doente, num lar;

Não gosto que seja um médico de família que tenha de assinar por baixo numa requisição de sacos de colostomia, se não sabe a diferença entre placas côncavas e convexas;

Não gosto de ver pessoas a esperar horas por consultas destinadas a passar o mesmo fármaco, em que os utentes nem sequer são vistos (o caso de centros de saúde em que basta enviar um e-mail com a medicação e depois é só ir lá buscar a receita passado 2 dias);

Não gosto de informação clínica que é enviada para outros hospitais e serviços e de se tomarem decisões clínicas com base nesta informação, sem o doente estar sequer presente;

Não gosto de ver esta questão ser levantada quando não temos ainda reconhecida a necessidade a nível nacional de ter enfermeiros em nr suficiente para responder aos cuidados de enfermagem necessários;

Não gosto de responder apenas a protocolos. Isso já eu faço. Gosto antes de ter um curso equivalente a mestrado (2 anos) e ser sujeito a provas que demonstrem que tenho competência para prescrever e dessa forma não colocar à prova a minha idoneidade nessa função;

Não gosto de receber como bacharel e de não ver as minhas competências actuais de licenciado reconhecidas;

Não gosto de nos ver a abandonar funções de higiene, posicionamentos, tratamento de feridas, monitorização glicémica para auxiliares, como preconizado em manuais de entidades do governo e em cursos ministrados por colegas meus (que lhe perdoem, que não sabem o que estão a fazer);

Não gosto de ver lares de idosos com 1 enfermeiro 4 horas por dia 2 vezes por semana, em que todo o trabalho é feito por auxiliares (correndo esses idosos riscos desmedidos) e toda a coordenação feita por assistentes sociais, quando quem lá deve estar, sem sombra de dúvida, são enfermeiros.

Não gosto de ver trabalho de grupo em vez de ser de EQUIPA, em que as pessoas não confiam umas nas outras, não sabem quais as suas competências, não assumem as responsabilidades em conjunto e sabem mais o que apontar à cara do outro que as próprias competências.


Sendo assim e assim sendo, quero ver resultados produzidos e expressos através de indicadores que demonstrem o valor dos nossos cuidados, e quero ver estas e outras situações regularizadas antes de embarcar em voos maiores, todavia necessários.


aquele abraço