quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Profissões escaldantes ...



É na edição do mês de Setembro que a revista Happy Woman, num artigo escrito por Helena Magalhães, revela "... segredos e aventuras escondidos por detrás do sigilo profissional".

O dito artigo embarca no relato de um conjunto de profissionais da saúde e da aviação comercial , explorando as aventuras sexuais destes no decorrer da sua jornada de trabalho. Até aqui, tudo bem, não fosse o dito artigo transmitir um conjunto de ideias erradas que, generalizadas, contribuem para perpetuar um conjunto de estereótipos que prejudicam a imagem da Enfermagem neste país.

Aqui fica o conteúdo do e-mail que enviei para a dita revista, contestando este artigo:

" O meu nome é José Martins, sou Enfermeiro e, tendo tomado conhecimento do artigo "Profissões Escaldantes", publicado pela vossa revista de Setembro de 2011 nas páginas 194 a 196, venho por este meio manifestar a minha profunda indignação por algumas das ideias expressas no mesmo.

Se é certo que o artigo se baseia num conjunto de relatos de profissionais da saúde (algumas delas enfermeiras) e da aviação comercial, correspondendo o que está escrito (assim acredito) àquilo que foi declarado pelos entrevistados, também é certo que a autora, Helena Magalhães, veicula um conjunto de ideias e conjuga um determinado número de relatos que, para quem desconhece o meio (neste caso refiro-me ao hospitalar, pois é aquele que conheço por dentro), poderá gerar ideias absolutamente erradas e passíveis de consequências graves. Passo a explicar:

Os media transmitem um grande número de informações aos leitores e as opiniões/ideias/sugestões veiculadas influenciam a população e, sobretudo, influenciam quais os temas que fazem parte da discussão pública. Se é certo que algumas dessa informação é útil, verdadeira e ajuda a construir opiniões sólidas, também acontece o facto de muita da informação transmitida não corresponder à realidade ou retratar apenas pequenas partes da mesma e, por isso, induzir as pessoas em erro.

Como é óbvio consideramos o juízo crítico de cada um dos leitores que, face a cada comunicação, decidirá se a considera pertinente, verdadeira e válida. Todavia, por mais que este espírito crítico exista, o que é comunicado nos media é tido muitas vezes como verdadeiro para os leitores e estes assumirão atitudes e comportamentos conforme os valores que lhe são incutidos.

É referido pela autora que "... a cumplicidade, a tensão acumulada e as dezenas de horas passadas juntos..." influenciam muitas vezes as pessoas e levam-nas a ter relacionamentos íntimos dentro e fora dos locais de trabalho, muitas vezes com outros que não os actuais parceiros. Concordo em absoluto com a ideia e vai de encontro a um artigo publicado no Jornal I (www.ionline.pt/conteudo/36925-quais-sao-as-profissoes-com-mais-divorciados), que relata uma investigação de Michael Aamodt (na qual os Enfermeiros são considerados a 4ª profissão com a maior taxa de divórcio) que "...concluiu que as profissões que exigem mais contacto físico mas também as mais stressantes são aquelas que apresentam maiores taxas de divórcio".

Agora partir da ideia que maior contacto implica maior envolvimento entre os membros da equipa de saúde e chegar à conclusão que os hospitais são locais de intensa actividade sexual, vai uma grande distância. A autora do artigo não chega a esta conclusão explicitamente, mas os relatos que escolhe propositadamente conferem uma ideia global de que os profissionais que estão no hospital especificamente para prestar cuidados de saúde, se envolvem com frequência em actividades de índole sexual (como é relatado nos segmentos "... à descoberta deste deste universo onde por debaixo das batas e fardas se escondem lingeries sensuais, aventuras a dois e turnos escaldantes" ou "apanhar colegas aos beijos nas escadas ou a praticar sexo oral por portas entreabertas já é quase tão natural como vê-los almoçar na cantina").

Que isso possa acontecer, não nego, mas o facto de apenas se relatarem estas experiências (embora pelo desfolhar da revista compreenda que este artigo vai de encontro ao género da dita revista), sem qualquer contexto de fundo, dá a liberdade ao leitor/a:

- de ver a Enfermeira como um símbolo sexual e uma personagem desejosa de se envolver em contactos sexuais frequentes no ambiente hospitalar, o que mantém, na sociedade, o estereótipo da enfermeira como "bomba sexual", que não poderia estar mais desactualizado, uma vez que as enfermeiras são profissionais competentes, responsáveis, que salvam vidas, cuidam doentes e evitam que complicações gravíssimas se instalem.

- manter um conjunto de fantasias sobre um grupo profissional que, na altura da prestação de cuidados, pode influenciar a prática de abusos (verbais, físicos ou psicológicos). A classe de Enfermagem é a que, nos últimos anos, sofreu mais abusos (com valores bem acima das outras classes, como pode comprovar nos relatórios da DGS sobre a segurança dos profissionais de saúde). É facto que o fantasiar com a figura da enfermeira "sexy" e actuar em concordância é um mecanismo de defesa que homens e mulheres doentes usam, com grande frequência, para tentar restabelecer o controlo sobre a doença e a sua vida (quanto mais lê-lo numa revista);

- desautorizar a figura da Enfermeira, como "catraia, rapariga nova que só pensa em andar metida com outros e que gosta pouco gosta", impedindo que os ensinos prestados por estes profissionais (sobre como manter o regime terapêutico, por exemplo) sejam eficazes e potenciando que as recomendações destes caiam em "saco roto";

- que, de uma forma geral, a profissão de enfermagem seja perspectivada como "menor" e, por isso, não mereça os mesmos incentivos à investigação/educação e prática, comprometendo assim a prestação de cuidados de enfermagem.

Como sabe, os relacionamentos íntimos e as traições acontecem em todas as profissões com maior stresse e contacto interpessoal. A Enfermagem, ao ser retratada neste artigo por dois ou três relatos, que conferem uma dimensão reduzidíssima do que se passa verdadeiramente nos hospitais, é aqui explorada como uma profissão de "ninfomaníacas", o que reforça o estereótipo da "enfermeira sexy" e que pode reforçar nos leitores a ideia de uma profissão "menor".

Profissionais "ninfomaníacas" não merecem respeito, não merecem incentivos à sua carreira profissional, não merecem condições para trabalhar com segurança e qualidade.


Uma última nota para o comentário "... no hospital as regras estão bem estabelecidas: os médicos envolvem-se com as enfermeiras, mas as médicas só se envolvem com médicos, e o que pesa na hora de apontar o alvo é o estatuto e o poder": esta situação, a ocorrer, só se for no hospital desta fonte. Verifica-se novamente o reforço de outro estereótipo (desta vez veiculado, infelizmente, por uma colega de profissão), a de que os médicos são superiores aos enfermeiros dentro das instituições de saúde. Saiba que médicos e enfermeiros são colegas de equipa e devem funcionar numa relação de colaboração e comunicação frequente, pois são duas áreas do conhecimento distintas que, embora com alguns pontos comuns, fornecem individualmente cuidados únicos que, em conjunto, permitem a melhoria do estado de saúde dos doentes.

Perspectivar os médicos como uma classe superior só serve para afastar as duas classes e é uma ideia que era verdade, mas em 1970, não hoje. Todos os profissionais se envolvem com todos, não interessa a classe na altura de escolher. Conheço médicas casadas com floristas, com enfermeiros, com administradores. Mais uma vez, uma única descrição da realidade vigente neste artigo, coloca em causa a percepção do leitor/a relativamente à relação entre estes profissionais.


Concluindo, é de facto interessante manter um imaginário sexual em torno de determinadas situações mas, neste caso em particular, só serve para rebaixar estas profissionais e contribuir para que, no futuro, as suas condições de trabalho e consequentemente a assistência aos clientes seja colocada em causa.

É pautado por este espírito crítico e de cidadania, ao invés da pura distracção dos leitores, que determinados assuntos devem ser abordados. Pela saúde dos Portugueses.

Pedindo desculpa pela extensão desta exposição, despeço-me com os melhores cumprimentos.

Enfermeiro José Martins."

O leitor do blogue gostou da crítica e considera-a válida e pertinente?

Então subscreva a dita cuja e identifique-se com Enfermeira/o e envie para a redacção da revista Happy Woman (ao cuidado da directora Carla Ramos, Redacção e autora do artigo Helena Magalhães e director-geral Vasco Galvão Teles). Vários e-mails poderão despertar a consciência dos jornalistas desta revista e rever o modo com a Enfermagem é perspectivada nos seus artigos! O contacto disponível é vgt@baleskapress.pt


Se tiver resposta colocá-la-ei aqui!

aquele abraço

2 comentários:

  1. Boa noite, eu estou doida para ler esta matéria, a minha tia é enfermeira e ouviu falar naquilo que você disse e ficou também muito insatisfeita, andei a procurar a revista em duas bancas aqui perto e não achei, será que você pode me enviar a reportagem completa por email?
    Ficaria muito agradecida.. Obrigada.

    rafa_tcavalcantin@hotmail.com

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  2. Não sou profissional de Saúde, mas sinto-me ofendida pela peça que a Helena Magalhães escreveu. Estereótipos e generalizações são perigosíssimas e a revista Happy Woman adora estereotipar e generalizar. Como jornalista, sinto-me ofendida por muitos dos conteúdos que a Happy Woman veicula.
    Contudo, não podemos esquecer que a maioria dos artigos são meras traduções de artigos estrangeiros. Apenas lhes "aportuguesam" os nomes e as localidades.
    Sim, é muito mau Jornalismo. Sim, sinto-me envergonhada.

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